Como eu prometi há alguns dias, aqui está o review completo sobre o álbum da Esperanza Spalding, Esperanza. Demorou um pouco mais do que eu gostaria devido à necessidade de ter um link próprio que, numa internet rápida do jeito que é a minha, acaba se tornando uma tarefa árdua e demorada. De qualquer forma, agora já está no ar. Boas soundscapes.

Esperanza

O álbum mal começa e já podemos perceber que a moça não está para brincadeiras. Logo de cara nos deparamos com uma ótima versão para Ponta de Areia, de Milton Nascimento. No arranjo dela, a música começa bem tribal só com ela (cantando), Jamey Haddad e Gretchen Parlato na percussão e nos backing vocals, respectivamente. Logo que o resto da banda entra, a primeira coisa que se nota é o R&B que ela fez encaixar perfeitamente na música, seguida de perto por sua intimidade com o português e sua voz doce. Já no segundo verso da música outra coisa também chama atenção, sua destreza rítmica, por assim dizer. É com uma facilidade impressionante que ela “brinca” com a melodia, alterando os valores e dando outro suíngue pra música. O pianista, Leo Genovese também já se mostra digno de nota logo nesse começo de disco. Juntamente com Esperanza, ele é o único músico que toca o álbum todo, e não é pra menos. Também nesse segundo verso, Gretchen coloca um contra-canto em cima da melodia que dá um destaque legal e faz com que a música evite se tornar enfadonha (mesmo repetindo a melodia). E, pra quem acha que criatividade tem limites, Esperanza mostra que é possível repetir uma terceira vez aquilo que já foi cantado, diferentemente das duas outras formas e ainda por cima soar como a mesma música, sem perdermos a referência de em que ponto a música se encontra. Gretchen complementa essa parte com outro belo contra canto. Aqui temos um ponto interessante do arranjo, onde podemos perceber claramente que o instrumental vem mantendo um “ostinato”, uma mesma linha desde o começo, enquanto que o contra-canto que, numa primeira vez que se ouve passa quase que desapercebido, é que fica encarregado de deixar a harmonia (que foi alterada) evidente. A música segue com uma dobra de Esperanza e Gretchen que prepara o improviso (de muito bom gosto) do piano. No ponto alto do improviso do piano, onde podemos perceber a qualidade dos músicos que Esperanza chamou para acompanhá-la. A dobra das vozes volta, todo mundo tocando em “fortíssimo” preparando de uma forma muito boa a volta para o começo da música, que volta “lá em baixo”. Depois de cantar o verso mais duas vezes, a música vai “sumindo” com a saída dos instrumentos até ficar só bateria e percussão e daí pro fade-out.

A segunda música, I Know You Know, é uma composição da própria Esperanza e tem bem o clima R&B do qual eu falei, isto é, até a chegada do refrão. A princípio a música soa como apenas mais um R&B bem americano, com a chegada do refrão (que vem rapidinho, rapidinho, só tem um verso antes dele), quem ouve toma um susto de ver o tamanho da enciclopédia rítmica dessa mulher e o seu extremo bom gosto na mistura deles, isso tudo porque o refrão é inteirinho convencionado como um samba (dá até pra imaginar um partido alto nessa hora), com exceção da melodia principal, que continua com os elementos do R&B do começo da música. Logo depois disso voltamos para o verso e depois para o refrão novamente, sem grandes mudanças. Depois desse segundo refrão vem uma verdadeira salada rítmica de dar gosto! A parte de percussão da música (bateria e triângulo) colocam um groove mais puxado para o samba-funk, o detalhe é que agora não é só isso que choca com a melodia, uma vez que o baixo da moça também soa bem como o R&B do começo. Essa ponte leva ao improviso do piano, só que este já não é mais o samba-funk-R&B da ponte, já é algo mais próximo de algo como um samba-salsa (?). O improviso é curtinho e logo estamos de novo no refrão e um instante depois voltamos ao R&B bem black do começo da música e vamos nos despedindo de uma aula de bom gosto musical com o mesmo groove do começo da música, com Esperanza “improvisando” algumas melodias com trechos da letra ou coisas relacionadas e o pianista deixando sua marca novamente.

Fall In é provavelmente a música mais bluesy do disco. Nela tocam apenas Esperanza (só cantando) e o pianista Leo Genovese, que demonstra um dom para acompanhar. Os dois maiores destaques da música vão para a letra, que é belíssima e para a voz de Esperanza, que nessa música se mostra mais doce (!) do que nas outras, e para a melodia com várias tensões, que coloca a música em uma categoria de “músicas que arrepiam a espinha”.

O disco segue com I Adore You, composição de Esperanza e que, na minha opinião, é a melhor faixa do disco. A música começa bem tribal, como na primeira, clima logo enfatizado por Esperanza com sua voz e seu baixo na hora certa, mas já dando uma intenção um pouco mais salsa pra música. A melodia (anacrúsica) logo começa, meio em rubato, e os outros músicos entram. A princípio essa música parece ser um samba-pra-frente “comum” (se é que dá pra chamar de comum o samba dessa mulher), porém, com um pouco mais de atenção logo se percebe que não é um samba comum. Já no começo é possível destacar a presença de Horacio Hernandes “El Negro” na bateria nessa música, o que confere pontos a mais para qualquer música, afinal, tudo que ele toca fica notável. Se fosse necessário um rótulo para essa música, eu arriscaria algo como um samba-salsa-pra-frente. A música toda é “lá em cima” e cheia de convenções, isto é, até o ponto alto dela, que é justamente quando a música diminui de intensidade e é como se um holofote maior ainda fosse acendido sobre Esperanza. Com a segurança da grande baixista que é, ela faz um improviso que chega a lembrar muito Tânia Maria, dobrando o baixo (improvisado) com a voz. Extremo bom gosto no improviso e demonstrações de técnica, bom gosto e conhecimentos harmônicos dignos de alguém que, como eu disse no outro post, tem de ter noventa e nove anos ou ser de outro planeta. Impressionante é o termo! Chegando perto do final do improviso dela, a música começa a retomar o “fortíssimo” original, mais uma vez destacando as emíolas que Horacio Hernandez “El Negro” acrescenta. A música retoma ao tema, mas, pelo menos pra mim, depois do improviso excepcional dela o jogo ta ganho! No final da música, é retomado o clima tribal e os instrumentos saem na mesma ordem que entraram.

A quinta música do álbum, Cuerpo Y Alma (Body & Soul), demonstra que, além do inglês, do português, do baixo e da voz muito bem dominados, ela também tem sua carta na manga: o espanhol! Pasmem, depois de quatro faixas ela ainda tem uma carta na manga, alguma coisa que o ouvinte já não esperava mais. Parece que, além dos arranjos, ela gosta bastante também de jogar com a instrumentação, já que quase em nenhuma música os músicos são os mesmos ou, caso sejam, não estão na mesma formação de antes. Em Cuerpo Y Alma (Body & Soul), tocam apenas Esperanza, Leo Genovese (piano) e Otis Brown (o baterista das duas primeiras músicas). Ponto positivo pra combinação baixo-voz dela nessa música (principalmente para a voz), para o impressionante improviso de Leo Genovese e ponto negativo para o baterista, que na minha opinião não deixou muito claro nada, podendo ter aproveitado bem melhor a música, que varia entre um jazz standart e um bolero ou uma cumbia. O único pecado grave dessa música foi ter vindo depois de I Adore You. Porque? Simples, porque Esperanza também improvisa nessa, é tão bom quanto, mas não há como se comparar á tudo o que acontece em I Adore You, que deve ter sido aquela música que todos saem sorrindo de dentro da sala do estúdio (o disco foi gravado todo ao vivo), estupefatos com o que aconteceu.

She Got To You é a música que dá continuidade ao álbum. Também composta por Esperanza, She Got To You é um fusion dos bons, conta com a participação de Donald Harrison no sax alto. A música começa num ritmo meio frenético, até pela melodia, que é toda corrida, e aqui podemos sugerir um padrão, a não-demora para que um refrão seja colocado na música. Logo depois desse começo, todos desembocam em um jazz ao melhor estilo cafajeste (o que combina com a letra), bordel, Chicago, ou como quiserem chamar, que é o refrão, clima esse que é enfatizado no interlúdio mais á frente. Pra falar a verdade, a música num todo tem muito cara de musical da Broadway ou coisa assim, dá até pra imaginar jogos de luzes diferentes dependendo da parte da música, ou posicionamento dos atores.

O disco continua rodando e eis que surge Precious, outra composição de Esperanza. Esse é outro ponto alto do disco, sendo uma das mais belas baladas de R&B que eu já ouvi. Mais uma vez apenas Esperanza, Leo Genovese e Otis Brown tocam, no melhor estilo trio de jazz. A melodia do começo já é uma obra de arte á parte, mas a música começa e revela uma linha de baixo tão bela quanto e uma colocação de voz parecida com a de Fall In. A música faz uso de uma harmonia requintada sem abrir mão de soar popular, é o tipo de música que você fica cantando o dia inteiro. Dinâmica muito bem trabalhada em uma composição primorosa, a música não peca em nenhum ponto. Utilizando um efeito mais parecido com EP, Leo Genovese improvisa mantendo a linha melódica da música intacta, sinônimo de um musical muito bem desenvolvido. Após o improviso retornamos ao refrão e partimos para o ponto alto da música: o verso com overdubs vocais de Esperanza, no melhor estilo R&B clássico, para logo em seguida voltar para a primeira melodia (aquela que já era digna de nota por si só) e fechar uma música grandiosa de uma forma grandiosa.

Mela é a próxima música, também composta por Esperanza, mostrando como a moça sabe não só tocar “latinidades” de outros, mas também como esta corre em suas veias. Logo de cara é perceptível a habilidade “contrabaixística” dela por meio de uma linha no melhor estilo afro cubano de compor, lembrando muito alguns compositores que seguem o estilo, mas com muito da cara dela. Mela é uma salsa/latin-jazz que não poderia ser melhor. Conta com Ambrose Akinmusire no trompete e o notável Horacio Hernandez “El Negro” voltando a uma formação que não havia aparecido até então no disco: baixo, bateria, trompete e o onipresente no disco, Leo Genovese. Logo depois do tema já podemos resaltar a contribuição de Horacio Hernandez para a música, mostrando que não é um dos mais requisitados bateristas da atualidade por alguma acaso do destino. Destaque também para a condução de baixo de Esperanza que é uma das mais virtuosísticas do disco, não ficando em nenhum ponto atrás do groove de bateria do “El Negro”. Com o final do improviso de trompete, uma parte do tema é retomada e a música cai por alguns segundos no começo do solo do pianista Leo Genovese, que surpreende a cada faixa, superando as expectativas e se mostrando tão eclético e pau-pra-toda-obra quanto Esperanza. Depois do improviso de piano, é a vez do baixo de Esperanza tomar a frente, dessa vez sem o acompanhamento da voz, o que parece influenciar um pouco no que ela toca, já que esse é um solo, “contrabaixísticamente” falando, até melhor que o de I Adore You, só pecando pelo volume do instrumento que, apesar da banda diminuir a dinâmica da música, acaba ficando meio apagado em alguns momentos. Terminado o solo de baixo, volta a linha de baixo do começo e, com ela, o tema. Depois do tema, parece que a música vai acabar, mas é aí que Esperanza mostra porque já é uma grande revelação e surpreende voltando com um improviso de – pasmem – voz! E não é um improvisozinho qualquer não, é, mais uma vez, um improviso no melhor estilo Tânia Maria, cheio de alterações e tensões, mostrando um controle vocal absurdo e sobre-humano, tudo junto. Essa, junto com I Adore You, é uma das músicas que são as mais impressionantes desse álbum. Humildemente, como se nada tivesse acontecido, eles terminam a música num ralentando no final do chorus. Clap! Clap! Clap!

Love In Time é a próxima. Uma baladinha cool até na instrumentação: baixo bateria e piano. Esta é mais uma composição de Esperanza, mostrando mais uma vez o ecletismo e o tamanho da biblioteca rítmica e composicional dessa mulher. Com o decorrer da música, várias nuances vão aparecendo, do começo cool para um crescendo que dura até o final do improviso do piano e uma caída brusca para mais um solo notável de Esperanza que mostra que, além de compor também possui a linguagem dos ritmos que toca. O verso volta e então ela nos surpreende com a variação de dinâmica dessa parte, sinuosa, crescendo e decrescendo conforme a evolução da letra. No final da música, ela vai lá em cima, num fortíssimo de arrepiar e depois de uma caída sem escalas para o pianíssimo, encerra no melhor estilo standard de jazz. Belíssima música, balada comovente e intensa. E, só para constar, não dava para não ser intensa sendo a música de número nove do cd (modo obsessão própria: on).

Espera é a música que sucede Love In Time e, assim como esta, também é composição de Esperanza. Um R&B bem black de melodia lembrando bastante cantoras como Laurin Hill. Mais uma vez podemos perceber a preocupação de Esperanza com as várias dinâmicas da música, que alterna momentos onde seu baixo, por exemplo, fica quase que inaudível, com outros de subidas melódicas e de dinâmica, normalmente associadas nessa música. Não chega a ser digna de nota por alguma coisa que não a bela construção da linha de baixo e da letra inspiradora, mas não chega a ser uma música que você tem vontade de pular.

If That’s True, outra composição de Esperanza, é a próxima e, assim como a anterior, é bem R&B. No tema, porque, quando é aberta a sessão de improvisos, um jazz beirando o be-bop toma conta e explica a escolha de Donald Harrison, que na minha opinião não tinha acertado a mão na She Got To You, e improvisa nesta faixa de uma forma altamente virtuosística, com vários detalhes claramente de influência “coltraniana”, porém alternando com outros mais “parkerianos” e ainda um final mais pro “milesiano”. O improviso dele é seguido pelo de Ambrosie Akimusire (trompete) que, apesar de não ser tão constantemente virtuoso como Donald Harrison, mostra uma habilidade enorme no instrumento. Mais uma vez Leo Genovese mostra o grande pianista que é e embala na onda be-bop dos outros dois, a única diferença é que o cara parece que perdeu o controle, é um absurdo. Esperanza segue a sessão de improviso, agora acompanhada somente por Otis Brown na bateria e leves pinceladas do pianista. O improviso dela em si soou meio tímido em meio ao que os outros músicos propuseram, mas de forma alguma passa desapercebido, ainda assim a mulher merece mais um ponto positivo pela condução pulsante e com a linguagem dos maiores nomes do jazz no baixo, propondo também várias emíolas e diversificando bastante o walking bass, não deixando este soar repetitivo.

A última música do disco é Samba Em Prelúdio, de Baden Powell e Vinícius de Moraes. Nesta música, Esperanza me surpreendeu muito ao fazer acordes e condução de violão no baixo acústico (!), coisa que, para mim, era inédita até ouvi-la. Esta música é tocada apenas por ela e por Nino Josele no violão, participação que pareceu ser um “só-pra constar” por ter contribuído razoavelmente pouco para a música, apresentando um solo bonito, mas que me soou tímido, apesar do bom gosto tanto no improviso quanto na condução. O grande destaque da música ainda fica para Esperanza que, depois do improviso de Nino volta a tocar e cantar sozinha demonstrando uma familiaridade com a música brasileira de impressionar muito brasileiro. No final da música, Nino faz um floreio de violão que não acompanha em nada o raciocínio de Esperanza para o arranjo, mas que acaba passando desapercebido, tamanha beleza da voz dela cantando essa música maravilhosa.

A batida do martelo:

Esse disco, como eu já havia dito antes e agora digo com a propriedade de quem o ouviu, se encaixa no VALE COMPRAR, assim como no VALE OUVIR, no VALE IR AO TIM FESTIVAL DESTE ANO PARA VER AO VIVO (dia 24 de outubro no Auditório do Ibirapuera em São Paulo e com data no Rio também) e em mais um outro milhar de categorias “inexistentes”. O disco todo, do começo ao final, é uma aula de composição, interpretação, arranjo, bom gosto e, acima de tudo, do quanto essa mulher é um verdadeiro fenômeno. Alternando entre vários ritmos e misturando-os, ela constrói uma personalidade musical forte e de incontestável excelência, tanto a acadêmica dos desenvolvimentos harmônicos, considerações técnicas e, muitas vezes, de julgamentos premeditados, quanto a popular do bom gosto, do prezo pelo audível, do comercialmente vendável e “audivelmente” atrativo. Um ou outro ponto baixo poderia ser colocado, mas o único que realmente incomoda no decorrer do disco é o volume e a equalização do baixo de Esperanza, que poderia ter soado mais brilhante e mais alto, mas não é algo que chegue a atrapalhar o disco, tanto é que eu tive que ficar procurando detalhes mínimos pra poder citar algum aqui. Mais uma vez num clima de premonição, creio que ela em muito pouco tempo se tornará referência no instrumento e, arriscando um palpite alto demais, quem sabe ela não se torne um Jaco Pastorius do gigante, ou a sucessora de nomes como Eddie Gomez e Niels Pedersen (NHOP). De qualquer forma, essa mulher já é uma referência da música por sua arte ser tão elaborada e requintada e soar tão acessível como soa, com certeza Tânia Maria pode ficar feliz que seu legado terá continuidade, dessa vez não no piano, mas no baixo acústico com essa mulher que é um absurdo e, só pra lembrar, ela tem só 23 anos, ou seja, muitas águas ainda vão passar debaixo dessa ponte…

Maiores informações sobre ela no no site oficial (http://www.esperanzaspalding.com/) e no seu MySpace (http://www.myspace.com/esperanzaspalding). O link de download do álbum dessa vez é link próprio, portanto, caso o link quebre, mande um email ou comentário no post mais recente que eu coloco de novo no ar.

DOWNLOAD DO ÁLBUM

(para fazer o download da capa basta clicar na imagem no começo do post)

Create a soundscape.

Antes de começar o post, devo informar aos navegantes que está não é uma viagem como as outras, nem é um disco como os outros, então ele merece uma licença poética e, é claro, um post completamente fora do padrão. Não haverá batida de martelo pelo simples fato de que este é um disco que fala por si próprio, e como fala. Desta forma, decidi nomear esse tipo de post de epopéia (não sei quando nem se haverá outro, mas estes terão este nome), afinal, feito heróico desse tipo merece um lugarzinho só pra ele, seja na sua estante de discos, na sua lista de mp3 ou mesmo aqui no blog.

Nos dias 18 e 19 de março de 1963, algumas pessoas reuniram-se no estúdio de gravação A&R e criaram o álbum que, para muitos, é o maior da bossa nova em todos os tempos. Ou o maior disco de bossa nova gravado fora do Brasil. Claro que, enquanto o estavam gravando, eles nem imaginavam o tamanho da façanha (ou do buraco), e nem que o disco seria um divisor de águas na vida de todos os envolvidos. Ta, alguns talvez apenas desconfiassem disso.

Os culpados foram o saxofonista (tenor) americano Stan Getz, o pianista e compositor Tom Jobim, o violonista e cantor João Gilberto, o contrabaixista Tião Neto, o baterista Milton Banana, Astrud (mulher de João Gilberto) e Mônica Getz (mulher de Stan Getz).

Getz/Gilberto seria gravado na seqüência do já então polêmico show de bossa nova no Carnegie Hall, que acontecera havia menos de quatro meses. Tom, João Gilberto e Milton Banana foram alguns dos poucos músicos brasileiros que tinham ido para Nova York para o show e resolvido continuar por lá, enfrentando o frio, a solidão, a saudade do Rio, das garotas de Ipanema e, é claro, do feijão.

No final das contas, esse show foi “aclamado” (se é que esta é a palavra) como um enorme fiasco mesmo contando com nomes como Sérgio Mendes, Roberto Menescal entre outros. Quando os que decidiram voltar para o Brasil aqui chegaram, enfrentaram logo um batalhão de repórteres querendo saber mais sobre o tal fracasso do concerto, querendo explicações e todas aquelas coisas de mídia. Tom e João discordavam dessa opinião da mídia, mesmo assumindo a desorganização que tinha tomado conta do palco naquela noite, mas com o ponto positivo de terem chamado atenção de outros grandes nomes como Bill Evans, Miles Davis, Dizzy Gillespie e Quincy Jones e, por conta disso, decidiram que ainda não era hora de voltar. Na verdade, segundo o que conta a história, o que realmente aconteceu foi que o produtor do evento não pagou á eles um centavo sequer e, dessa forma, os dois ficaram para receber o que ele os devia. Mandaram buscar as esposas e ficaram vivendo em Nova York com seu próprio dinheiro.

Nesse meio tempo tem uma história “intermediária” que conta que, enquanto as esposas não chegavam, Tom foi “adotado” por Gerry Mulligan e Gene Lees (autor da versão em inglês para Desafinado e Corcovado). Conta a história de que os trÊs andavam de boteco em boteco sempre grudados. A dupla de americanos não demorou muito a perceber três talentos do compositor: a sua musicalidade, a velocidade com a qual aprendia inglês e a sua capacidade cúbica – ou seja, a capacidade dele tomar o triplo de whisky que eles. Conta a história também de que Tom adorava freqüentar esses botecos para ficar amigo dos cozinheiros e garçons (normalmente de origem latina) e poder aproveitar de um pouco do arroz e feijão que eles faziam para os empregados na cozinha.

Enquanto isso, Stan Getz vivia na maior boa vida trazida pela maré de boa sorte que veio junto com a bossa nova. Isso porque sua carreira tinha ido para o buraco, afogada em álcool e entorpecida em drogas, e ele agora comemorava o sucesso do álbum com Charlie Byrd (Jazz Samba), que havia entrado na lista dos mais vendidos e ficaria 70 semanas em 1º lugar, esbanjando dinheiro e vivendo como um rei, principalmente por conta do empresário, que já planejava uma sucessão de discos e injeção de dinheiro na bossa nova do gringo.

Nesse misto de golpe de sorte com o álbum e investimento alto do empresário, o disco com Tom e João Gilberto foi acertado. Os álbuns seguintes a Jazz Samba (Big Band Bossa Nova – que de bossa nova só tem o título – e Jazz Samba Encore! – que foi um fracasso segundo as expectativas do empresário e do músico) não obtiveram a aceitação do público que Stan Getz e seu empresário almejavam, só que o álbum com Tom e João Gilberto já havia sido acertado e, para não quebrar o contrato, eles resolveram não pular fora, mas já com um clima de jogo perdido no ar. Nunca dois homens se enganaram tanto… Afinal, quem é que imaginaria que aquele álbum é que seria o começo de tudo? Tamanha foi a broxada que Getz e seu empresário deram com essa dupla de ataque Getz e Bossa Nova que, para cortar custos, partiram para a gravação no maior e melhor estilo ao vivo, com todo mundo tocando junto e, caso alguém errasse, seria necessário que a faixa fosse completamente regravada. Mas, ah, ninguém ali era de errar…

A gravação do disco Getz/Gilberto, que tinha tudo para ser relax, de relax não teve nada. Mesmo com o clima de jogo perdido que imperava “secretamente” entre Getz e seu empresário, eles não contavam com um detalhe: o perfeccionismo dos brasileiros que eles tinham escolhidos para a gravação.

João Gilberto simplesmente não se satisfazia com a emissão sonora do sax de Getz, a achava muito enfática se comparada à delicadeza da bossa. Por isso, a todo instante a gravação era parada com uma reclamação de João Gilberto, que ficou famoso também pela chatisse tempos depois. Getz não entendia e João falava entre os dentes para Tom: “Tom, diga a esse gringo que ele é muito burro!” e Tom, claro, tentando amenizar o clima, repassava a Getz: “Ele está dizendo que é uma honra gravar com você”, mesmo sob as desconfianças de Getz por conta do tom de voz que João Gilberto usava.

Custou muito até que João Gilberto conseguisse fazer com que Stan Getz soasse ao sax quase como se sussurrasse. Isto é, pelo menos nas gravações, já que algum tempo depois, já na mixagem do disco, Stan Getz pediu ao técnico que aumentasse seus solos e, como os brasileiros não estavam lá, conseguiu deixar com a intensidade que ele gostava e que João Gilberto detestava.

Com todas as indas e vindas e as inúmeras interrupções, inclusive para esporádicas escapadas à um boteco ao lado do estúdio, as oito faixas de Getz/Gilberto foram gravadas e aqueles 34 minutos de beleza estavam eternizados. O disco inteiro, pelo menos o que entrou no disco, foi gravado em dois dias, cabendo a cada dia a gravação de quatro músicas.

Nesse ambiente é que aconteceu uma das maiores lendas da bossa nova e da música popular brasileira: a história da carochinha sobre a dona de casa, jovem e despretensiosa, que foi ocasionalmente chamada para gravar uma pequena participação e, dali, disparou para tornar-se um fenômeno de vendas no mercado americano. Quem era a dona de casa? Astrud Gilberto, claro.

Acontece que, segundo se conta, Astrud não estava por acaso no estúdio naquele dia e nem era tão despretensiosa assim. Ao contrário, sempre quis ser cantora e, desde que se casou com João Gilberto, ele a preparava para isso. Aconteceu que João Gilberto, a pedido da esposa, sugeriu a Stan Getz que a deixasse cantar a versão em inglês para Garota de Ipanema, o que não deixou Stan Getz muito animado, mas que fez com que o empresário visse ali uma ótima chance de promover o álbum, sendo dessa forma aprovada. Logo em seguida, Tom sugeriu que ela também cantasse a versão que seu amigo havia feito para Corcovado e assim, ambas foram gravadas.. Tempos depois, Stan Getz declararia que Tom e João não queriam que Astrud cantasse e que, se não fosse por ele, ela nunca teria sido descoberta. Ta…

Mesmo com esses estalos que o empresário tinha tido na gravação do disco, ao ser terminada a gravação, ele pagou todo mundo e simplesmente engavetou o disco, indo produzir outros discos. Os músicos “desbaratinaram” e foram tratar de outras coisas. Tom, por exemplo, passou por poucas e boas e acabou até tocando violão em algumas gravações para salvar unzinho no final do mês. João Gilberto aceitou o convite de João Donato e foram fazer uma temporada no sul da Itália, levando junto Tião Neto, Milton Banana e, é claro, Astrud Gilberto, que ainda ninguém conhecia e que viajou no papel de simples esposa de João.

O ano correu e, em julho, Tom embarcou de volta num navio para o Brasil. Na Itália o casal João e Astrud se separaram, indo literalmente um para cada lado – João para Paris e Astrud para o Rio. Em Paris, João Gilberto conheceu Miúcha e a convidou para ser sua secretária quando voltasse para Nova York. Em novembro, finalmente Getz/Gilberto saiu da gaveta. O empresário colocou pra ouvir e gostou do que ele tinha ali. Quanto mais ouvia, mais gostava. Mesmo a febre da bossa nova já tendo passado nos Estados Unidos, o empresário decidiu arriscar, afinal, o que ele tinha a perder? Ele tratou de prensar o álbum na íntegra e amputou as duas faixas com Astrud (The Girl From Ipanema e Quiet Night Of Quiet Stars) da participação de João Gilberto e ainda de quebra as deixou com um tempo mais convidativo para as rádios tocarem. Tratou de incluir o disco no suplemento “latino” da Verve e, em fevereiro de 1964, disparou a primeira cópia do single para uma pequena estação de jazz. Dias depois recebeu um telefonema do programador: os ouvintes não paravam de ligar para a estação, perguntando o que era “aquilo”.

No Brasil, em 1964, Garota de Ipanema podia ser qualquer coisa, menos uma novidade. Todo mundo já tinha gravado, e em todos os formatos possíveis e imagináveis: cantor-solo, trio de jazz, conjunto vocal, dupla de cantos, quarteto de cordas, orquestras de tamanhos variados e com arranjos sinfônicos. Enfim, de tudo quanto é jeito. Mas o mais impressionante é que, além de todos já terem gravado e todos já estarem cansados de ouvir, NINGUÉM esperava aquela versão com Stan Getz, João Gilberto, Tom Jobim, Milton Banana, Tião Neto e Astrud Gilberto. Ninguém no Rio, em Nova York, em Istambul ou em qualquer outra parte do mundo esperava por aquilo. Se o feito de Jazz Samba parecia inalcançável e a onde da bossa nova parecia ter sido apenas algo passageiro, o que dizer então de um disco que ficou em 2º lugar dentre os mais vendidos por 96 semanas? O primeiro lugar em todas as listas de 64 pertenceu a algum álbum dos Beatles, dos vários lançados naquele ano. Mas, ainda assim, Getz/Gilberto alcançou um feito que até hoje não foi atingido: é o álbum de jazz mais vendido de todos os tempos. Não só vendido como respeitado também.

Tamanho foi o barulho que esse disco causou que, em poucos meses, Stan Getz comprou uma casa de 23 quartos, João Gilberto embolsou módicos 23 mil dólares de saída. Já Astrud Gilberto ganhou o referente à tabela do Sindicato dos Músicos de Nova York: 168 dólares por dois dias de trabalho – e, ainda assim, Stan Getz achou demais.

Com The Girl From Ipanema tocando em todas as rádios, lojas de discos, máquinas automáticas, vitrolas domésticas, sistemas de som, torradeiras, carrinhos de cachorro-quente e bueiros de Nova York, seus criadores tiveram de voltar correndo para lá.

Stan Getz, mais do que depressa, mandou chamar Astrud no Rio e deu início á uma longa temporada de shows nos Estados Unidos. Não demorou muito para que Astrud se livrasse do “encosto” e desse início ás gravações de seu primeiro álbum solo (que foi sucedido por outros mais á frente), que acabou se tornando sinônimo dos anos 60 nos Estados Unidos. Tom também voltou para os Estados Unidos para participar do primeiro disco de Astrud, assim como para gravar uma série de grandes álbuns dele mesmo. A partir dali, ninguém mais segurou o fenômeno Tom Jobim. Quanto a João Gilberto, que já estava por lá, foi convidado por Stan Getz para um show que resultou num Getz/Gilberto #2 bem tímido e sem comparações com o primeiro. Á partir de 65, João Gilberto caiu na estrada acompanhado de gente grande como o pianista Bill Evans, mas já sem Stan Getz.

O empresário do famigerado Getz/Gilberto deu início a mais uma fase de discos de bossa nova, gravando os discos de Astrud, três dos que considero alguns dos melhores discos de Tom: Wave, Tide e Stone Flower, além de gente grande como Airto Moreira e Eumir Deodato, que teve até música no filme 2001: Uma Odisséia no Espaço saída de um dos álbuns dessa safra pós-Getz/Gilberto.

Por causa de Getz/Gilberto, a América adotou João Gilberto, Tom Jobim e Astrud Gilberto, absorveu-os e tratou-os como se eles fossem seus. E, por muito tempo, pareceu que eles eram mesmo. Entre Estados Unidos e México, João Gilberto ficou 20 anos fora do Brasil.Tom ia e voltava – e, numa dessas, gravou dois álbuns com Sinatra – até o fim, em 94. Já Astrud nunca mais voltou. Mais tempo se passou e, além de Tom, morreram Getz, Tiãoe Milton Banana. Garota de Ipanema, a canção propriamente dita, é que ficou imortal: tornou-se a primeira ou a segunda mais tocada no século inteiro, alternando com um Beatles, é claro. Já Getz/Gilberto, que nunca saiu de catálogo, inscreveu-se num pequeno panteão de perfeições criadas pelo homem (e, no caso, uma mulher), à margem e apesar de si mesmo. Perfeições que, um dia, esse homem terá de fazer por merecer.

Download do álbum (link do Um Que Tenha):

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Download do Álbum

Esperanza Spalding

19 Junho, 2008

Esperanza
sambajazzlatinoafricano

De sua boca flutuam tons em diferentes línguas e cores. Seus dedos sussurram cantos africanos, sambam Jobins, fumam charutos cubanos e improvisam New Orleans. Na bagagem ela leva alguns mestres: Herbie Hancock, Pat Metheny e Stanley Clarke. Foi violinista durante dez anos, há oito trocou o agudo pelo grave, e hoje surpreende o público com seus solos de contrabaixo. Deixou seu marco na Berklee – a maior escola de música do mundo – quando, aos vinte anos, tornou-se a instrutora mais nova da história da faculdade. Baixista, cantora e compositora, faz da sua voz um instrumento que duela com seu extremamente bem tocado contrabaixo. E tudo isso numa embalagem de beleza estonteante.

Com tanta coisa assim, é quase impossível imaginar que ela tem apenas vinte e três anos – de idade, pois acredito que de alma e experiência sejam necessários mais ou menos uns noventa e nove anos para tornar o feito que é sua música “compreensível”. O nome é Esperanza Spalding, o novo talento prodígio do jazz mundial.

Em janeiro de 2006 deu o ar da graça por aqui, acompanhando Roberto Fonseca (pianista cubano que ficou conhecido por se apresentar com Ibrahim Ferrer, do Buena Vista Social Club) e há pouco, Esperanza confirmou presença no Tim Festival 2008, para apresentar seu trabalho solo.

A melhor definição para a arte (com todas as letras merecidamente colocadas antes de seu trabalho) que essa mulher faz provavelmente seria algo como um rhythm and blues jazzístico com um pé no samba. Confuso? Bastante, porém é impossível negar o bom gosto e sensibilidade dessa mulher, independentemente dos rótulos.

Há algumas semanas tive contato com seu trabalho por meio do grande mestre Itamar Collaço e depois a santa Internet me trouxe algumas outras informações sobre ela. Tudo bem, eu sei que o prometido era comentar álbuns e etc. mas, como eu ainda não recebi o cd que eu comprei e o trabalho é bom num nível absurdo, senti a necessidade extrema de colocar isso aqui pelo menos como curiosidade e dica para que quem se interessa por música de qualidade ouça algumas coisas dela. Seu álbum ainda não está disponível para download na internet, mas é possível ouvir quase tudo dela no site oficial (http://www.esperanzaspalding.com/) e no seu MySpace (http://www.myspace.com/esperanzaspalding).

A batida do martelo, segundo o que eu consegui ouvir, se encaixa no VALE COMPRAR, assim como no VALE OUVIR, no VALE IR AO TIM FESTIVAL DESTE ANO PARA VER AO VIVO (dia 24 de outubro no Auditório do Ibirapuera em São Paulo e com data no Rio também) e em mais um outro milhar de categorias “inexistentes”.

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Como primeira soundscape desse blog, resolvi escolher um álbum que não sai da minha playlist há algum tempo. Seja pelo instrumental bem gravado e executado, bela voz doce e gostosa de Dani Gurgel, filha da pianista Débora Gurgel (Triálogo, DICA), ou pelo extremo bom gosto nos arranjos e letras do álbum, o primeiro “álbum” (entre aspas porque é um compacto) de Dani Gurgel, que tem distribuição livre em seu site mesmo (www.danigurgel.com.br), no Um Que Tenha (http://umquetenha.blogspot.com) ou no final desse post, já chama atenção.

Com as próprias palavras da cantora e fotógrafa (ou pelo menos as palavras que se encontram em seu site):
“Desenvolvendo um trabalho em que canta músicas de autoria própria e de novos compositores da música popular brasileira, Dani Gurgel vem realizando uma série de shows em São Paulo. Em 2007, encabeçou um projeto em que, a cada semana, um compositor diferente era convidado para participar do espetáculo, cujo repertório era composto, em maioria, por suas canções. A condição para esses ditos ‘novos’ compositores era que tivessem no máximo um único disco gravado.
Também compositora (e nova), Dani assina algumas das canções, em parceria com Debora Gurgel, que compõem o projeto Da Pá Virada, finalista do Projeto Nascente 2007. A intersecção dos dois projetos culminará no primeiro disco de Dani Gurgel, sendo gravado em 2008.
Dani acaba de gravar um ‘compacto’, com quatro músicas (uma sua e três de novos compositores), como uma amostra do disco, que pode ser ouvido e baixado na íntegra em seu site.”

O álbum “Compacto” começa com o ótimo “samba-pra-frente” Mares de Lá. A música começa com um vocalize que tem um clima meio de música infantil que já cai por terra com a entrada “jazzy” do instrumental assim que a letra começa. Muitas pinceladas aqui e ali executadas por todos, colocando a ênfase maior da música na letra e melodia da voz, que a essa altura (logo uns 30 segundos de música) já deixa uma impressão bem diferente do que a pequena notável tem por mostrar. Exibindo um domínio rítmico e melódico muito bom, deixando cada nota muito clara tanto em afinação quanto em tempo, e com uma letra primorosa de Vinícius Calderoni, que assina algumas das composições do disco, a música logo migra para um samba-jazz gostoso, com um gigante crescendo para uma “segunda parte” cheia de convenções, voltando logo em seguida para o clima jazzy do começo da música, cheio de pinceladas, e logo em seguida partindo para o ponto alto da música, onde a clave de samba fica mais evidente e a música chega no ponto alto naquela “samba-pra-frente” que citei no começo do parágrafo. Final da música com muitas frases, um improviso de fundo de Débora Gurgel e a volta do vocalize do começo da música, já num clima muito diferente, que deixa de ser infantil pra casar perfeitamente com todo o resto e coroar a música como a melhor do disco.

O disco segue com “Tergiversar”, também de Vinícius Calderoni, uma balada com clima latino e com refrão meio bossa-nova. Composicionalmente achei essa a melhor das músicas, apesar de ser obrigado a eleger “Mares de Lá” como a melhor do disco pela minha queda por sambas-pra-frente como é aquele. Com exceção da parte dos improvisos de congas e piano (aproximadamente aos 2 minutos), o resto da música lembra muito a forma de compor de Chico Pinheiro. Destaques para o final da música, com backing vocals gravados pela própria Dani (creio eu), que dão um toque especial para o final da música, para a dobra de piano e voz logo no começo e para a interpretação de Débora Gurgel, com uma belíssima condução virtuosística e com um improviso que, apesar de pequeno, ser digno de nota por ser totalmente condizente com a música, fugindo do padrão delirante de improvisos e mostrando uma identidade musical muito bem resolvida por parte dela.

O álbum continua rodando e eis que nos deparamos com a boa balada/bossa/baião “A Autora das Coisas”, que conta com vários efeitos de percussão, imitando chuva, por exemplo. Na minha opinião, é provavelmente a letra mais bonita do disco, assinada por Tó Brandileone, Leo Bianchini e Vinícius Calderoni. O grande destaque da música fica por conta da interpretação da letra, que a Dani conseguiu deixar com o clima leve que todo o resto pede. Não são muitos cantores que conseguem mudar nuances da música com detalhes pequenos como esses que vemos nesse disco.

A quarta e última música é a mais virtuosística do álbum. Todos os músicos não tiveram medo de colocarem muitas notas e acertaram a mão. Não consigo definir um estilo exato para a música, que tem várias passagens, incluindo um bom solo de André Henrique, apesar do timbre ter ficado exagerado para um solo de baixo, nas conduções não se nota isso e o timbre é agradável, porém ao instrumentista se colocar como solista, a equalização se mostra equivocada e poderia ter soado melhor, apesar de não ser algo que chegue a incomodar. O improviso de baixo é seguido por um floreio muito bom de Débora Gurgel, que não parece ter nenhum ponto baixo nesse disco. Outro destaque desta faixa é o baterista Thiago Rabello, que se mostra extremamente competente. A bem-humorada letra é assinada por Dani Gurgel e sua mãe Débora Gurgel.

A batida do martelo:

O disco é um dos que se encaixa no VALE ESCUTAR com louvor. Existem alguns pontos baixos onde o álbum se torna meio repetitivo quanto à forma de algumas músicas, porém isso não chega a ser algo que desabone o álbum, que é muito bom e tem um clima bem pra frente, mesmo nas baladas. Apesar de ser o primeiro álbum de Dani Gurgel, creio eu que poderemos esperar muitas álbuns e músicas primorosas dessa cantora mais á frente. Os destaques que valem para o disco inteiro ficam por conta de Débora Gurgel, que se mostra inteiramente confortável e com um bom gosto de dar inveja, e Dani Gurgel, que mostra que, apesar de ter uma carreira que começou há não muito tempo, existe música boa sendo feita, com muito bom gosto e qualidade. Não meço palavras ao enfatizar a minha crença de que ela se tornará em algum tempo uma das grandes cantoras (talvez não no sentido fama, apesar das músicas soarem bem populares aos ouvidos, mas no sentido voz) da música brasileira.

Desta forma fecho esse primeiro post de verdade. Abaixo seguem os links para o site e o MySpace dela, onde ainda dá pra ouvir outras duas músicas, “Dá Pá Virada” e “Clara da Lua”, que são de composição de Débora Gurgel e receberam letra da Dani, além do link para download do álbum, que já vem com capa, contra-capa e tudo o mais devidamente autorizados pela Dani.

MySpace: http://www.myspace.com/danigurgel

Site: www.danigurgel.com.br

Download do álbum (link do Um Que Tenha):

Como usar o protetor de links Lix.In:
Se pedir que se digite uma senha, faça assim:
- respeite os caracteres maiúsculos
- clique no botão “continue” em vez de apertar a tecla “enter”
Se você não respeitar essas regras, o pedido de senha se repete continuamente.

Como usar a senha do Rapidshare:
Ao baixar o arquivo, quando o Rapidshare pedir a inclusão da senha, escolha SOMENTE as quatro letras que tiverem um GATO sobre elas (as figuras são diferentes, há cães e gatos, reparem bem).

Download do álbum

Faixa 1 – Intro

1 Junho, 2008

Bom, nada melhor pra começar qualquer coisa do que uma bela de uma apresentação. Prometo me conter pra não falar mais do que o necessário e me esforçar para não deixar nenhuma lacuna.

Acabo de começar esse blog (não, sério?) que tem como intuito falar basicamente sobre música. Eu pretendo que ele funcione num ritmo razoavelmente regular, não no sentido temporal, mas no que se refere a postagens.

Como assim? Explico-me:

De tempos em tempos (leia-se quando houver inspiração, saco ou baixar alguma força divina que me faça escrever um texto todo em minutos), postarei algumas várias coisas (por coisas entende-se: impressões, considerações, etc.) sobre álbuns que me agradam (ou não) de artistas que me agradam (ou não). Apesar de ser uma coisa razoavelmente genérica, pretendo não fazer posts pra atrair visitantes, não é o intuito (se não é esse, então qual é?). As postagens devem funcionar num mesmo sistema: começarei com uma breve resenha sobre o artista ou a banda (que eu vou caralarguíssimamente chupinhar de algum site confiável). Logo depois escreverei tudo o que o álbum me passou, todos os pontos bons e ruins, considerações sobre timbragem, equalizações e essas partes mais específicas também serão consideradas. Depois de colocar tudo o que o álbum me fez pensar haverá uma “batida de martelo” que ira variar entre (basicamente) quatro vereditos: vale comprar, vale escutar, não é perda de tempo e nem passe perto. Depois disso tudo colocarei o link para o download do álbum para aqueles que são adeptos do download e contra comprar CD’s, mesmo porque ninguém é obrigado a pensar e entender o álbum da mesma forma que eu.

Por que isso tudo?

Simples. Quando eu procuro por álbuns de artistas que eu gostaria de conhecer ou conheço mas não o bastante para conhecer a discografia dele á fundo, acabo me perdendo e chutando o que baixar, o que comprar, o que ouvir ou não ouvir. Da falta de quem faça isso na internet, decidi criar isso aqui pra ver se eu tenho a paciência necessária pra fazer para os outros o que pra mim fez falta.

Por que Soundscape?

Soundscape é a minha big band de jazz preferida, ouço os seus dois álbuns há tempos, mas nunca soube o porquê do nome. Já estava pensando em criar esse blog (que se chamaria Music & Nicotine, ou então a tradução disso, Música & Nicotina), quando resolvi pesquisar o porquê do nome, eis que me deparo com a definição que vocês encontram na descrição deste blog: “Uma atmosfera ou ambiente criado por ou com música”, e aí vem aquele estalo, “Eureka, é isso!”. Então por isso o nome do blog é este. Espero ter o prazer de conseguir escrever uma resenha sobre esta maravilhosa big band logo, de qualquer forma já fica a dica.

Bom, creio eu que o blog já esta suficientemente explicado e pretendo colocar o primeiro post (de verdade) daqui alguns dias. Espero que os visitantes (caso haja algum) gostem desta experiência e espero que isso ajude a saber o que e quando ouvir. No mais acho que vocês vão conhecendo conforme o blog for se desenvolvendo e não me xinguem caso eu simplesmente decida mudar alguma coisa no meio do caminho porque, vocês sabem, as melhores idéias não vêm no momento que você decide fazer alguma coisa, normalmente elas vêm quando já é tarde demais para elas. A vantagem é que aqui nunca é tarde demais para elas, então, passando pela minha cabeça eu mudo, mas a essência, que é essa que foi explicada aqui, permanecerá.

Create a soundscape.