Antes de começar o post, devo informar aos navegantes que está não é uma viagem como as outras, nem é um disco como os outros, então ele merece uma licença poética e, é claro, um post completamente fora do padrão. Não haverá batida de martelo pelo simples fato de que este é um disco que fala por si próprio, e como fala. Desta forma, decidi nomear esse tipo de post de epopéia (não sei quando nem se haverá outro, mas estes terão este nome), afinal, feito heróico desse tipo merece um lugarzinho só pra ele, seja na sua estante de discos, na sua lista de mp3 ou mesmo aqui no blog.

Nos dias 18 e 19 de março de 1963, algumas pessoas reuniram-se no estúdio de gravação A&R e criaram o álbum que, para muitos, é o maior da bossa nova em todos os tempos. Ou o maior disco de bossa nova gravado fora do Brasil. Claro que, enquanto o estavam gravando, eles nem imaginavam o tamanho da façanha (ou do buraco), e nem que o disco seria um divisor de águas na vida de todos os envolvidos. Ta, alguns talvez apenas desconfiassem disso.

Os culpados foram o saxofonista (tenor) americano Stan Getz, o pianista e compositor Tom Jobim, o violonista e cantor João Gilberto, o contrabaixista Tião Neto, o baterista Milton Banana, Astrud (mulher de João Gilberto) e Mônica Getz (mulher de Stan Getz).

Getz/Gilberto seria gravado na seqüência do já então polêmico show de bossa nova no Carnegie Hall, que acontecera havia menos de quatro meses. Tom, João Gilberto e Milton Banana foram alguns dos poucos músicos brasileiros que tinham ido para Nova York para o show e resolvido continuar por lá, enfrentando o frio, a solidão, a saudade do Rio, das garotas de Ipanema e, é claro, do feijão.

No final das contas, esse show foi “aclamado” (se é que esta é a palavra) como um enorme fiasco mesmo contando com nomes como Sérgio Mendes, Roberto Menescal entre outros. Quando os que decidiram voltar para o Brasil aqui chegaram, enfrentaram logo um batalhão de repórteres querendo saber mais sobre o tal fracasso do concerto, querendo explicações e todas aquelas coisas de mídia. Tom e João discordavam dessa opinião da mídia, mesmo assumindo a desorganização que tinha tomado conta do palco naquela noite, mas com o ponto positivo de terem chamado atenção de outros grandes nomes como Bill Evans, Miles Davis, Dizzy Gillespie e Quincy Jones e, por conta disso, decidiram que ainda não era hora de voltar. Na verdade, segundo o que conta a história, o que realmente aconteceu foi que o produtor do evento não pagou á eles um centavo sequer e, dessa forma, os dois ficaram para receber o que ele os devia. Mandaram buscar as esposas e ficaram vivendo em Nova York com seu próprio dinheiro.

Nesse meio tempo tem uma história “intermediária” que conta que, enquanto as esposas não chegavam, Tom foi “adotado” por Gerry Mulligan e Gene Lees (autor da versão em inglês para Desafinado e Corcovado). Conta a história de que os trÊs andavam de boteco em boteco sempre grudados. A dupla de americanos não demorou muito a perceber três talentos do compositor: a sua musicalidade, a velocidade com a qual aprendia inglês e a sua capacidade cúbica – ou seja, a capacidade dele tomar o triplo de whisky que eles. Conta a história também de que Tom adorava freqüentar esses botecos para ficar amigo dos cozinheiros e garçons (normalmente de origem latina) e poder aproveitar de um pouco do arroz e feijão que eles faziam para os empregados na cozinha.

Enquanto isso, Stan Getz vivia na maior boa vida trazida pela maré de boa sorte que veio junto com a bossa nova. Isso porque sua carreira tinha ido para o buraco, afogada em álcool e entorpecida em drogas, e ele agora comemorava o sucesso do álbum com Charlie Byrd (Jazz Samba), que havia entrado na lista dos mais vendidos e ficaria 70 semanas em 1º lugar, esbanjando dinheiro e vivendo como um rei, principalmente por conta do empresário, que já planejava uma sucessão de discos e injeção de dinheiro na bossa nova do gringo.

Nesse misto de golpe de sorte com o álbum e investimento alto do empresário, o disco com Tom e João Gilberto foi acertado. Os álbuns seguintes a Jazz Samba (Big Band Bossa Nova – que de bossa nova só tem o título – e Jazz Samba Encore! – que foi um fracasso segundo as expectativas do empresário e do músico) não obtiveram a aceitação do público que Stan Getz e seu empresário almejavam, só que o álbum com Tom e João Gilberto já havia sido acertado e, para não quebrar o contrato, eles resolveram não pular fora, mas já com um clima de jogo perdido no ar. Nunca dois homens se enganaram tanto… Afinal, quem é que imaginaria que aquele álbum é que seria o começo de tudo? Tamanha foi a broxada que Getz e seu empresário deram com essa dupla de ataque Getz e Bossa Nova que, para cortar custos, partiram para a gravação no maior e melhor estilo ao vivo, com todo mundo tocando junto e, caso alguém errasse, seria necessário que a faixa fosse completamente regravada. Mas, ah, ninguém ali era de errar…

A gravação do disco Getz/Gilberto, que tinha tudo para ser relax, de relax não teve nada. Mesmo com o clima de jogo perdido que imperava “secretamente” entre Getz e seu empresário, eles não contavam com um detalhe: o perfeccionismo dos brasileiros que eles tinham escolhidos para a gravação.

João Gilberto simplesmente não se satisfazia com a emissão sonora do sax de Getz, a achava muito enfática se comparada à delicadeza da bossa. Por isso, a todo instante a gravação era parada com uma reclamação de João Gilberto, que ficou famoso também pela chatisse tempos depois. Getz não entendia e João falava entre os dentes para Tom: “Tom, diga a esse gringo que ele é muito burro!” e Tom, claro, tentando amenizar o clima, repassava a Getz: “Ele está dizendo que é uma honra gravar com você”, mesmo sob as desconfianças de Getz por conta do tom de voz que João Gilberto usava.

Custou muito até que João Gilberto conseguisse fazer com que Stan Getz soasse ao sax quase como se sussurrasse. Isto é, pelo menos nas gravações, já que algum tempo depois, já na mixagem do disco, Stan Getz pediu ao técnico que aumentasse seus solos e, como os brasileiros não estavam lá, conseguiu deixar com a intensidade que ele gostava e que João Gilberto detestava.

Com todas as indas e vindas e as inúmeras interrupções, inclusive para esporádicas escapadas à um boteco ao lado do estúdio, as oito faixas de Getz/Gilberto foram gravadas e aqueles 34 minutos de beleza estavam eternizados. O disco inteiro, pelo menos o que entrou no disco, foi gravado em dois dias, cabendo a cada dia a gravação de quatro músicas.

Nesse ambiente é que aconteceu uma das maiores lendas da bossa nova e da música popular brasileira: a história da carochinha sobre a dona de casa, jovem e despretensiosa, que foi ocasionalmente chamada para gravar uma pequena participação e, dali, disparou para tornar-se um fenômeno de vendas no mercado americano. Quem era a dona de casa? Astrud Gilberto, claro.

Acontece que, segundo se conta, Astrud não estava por acaso no estúdio naquele dia e nem era tão despretensiosa assim. Ao contrário, sempre quis ser cantora e, desde que se casou com João Gilberto, ele a preparava para isso. Aconteceu que João Gilberto, a pedido da esposa, sugeriu a Stan Getz que a deixasse cantar a versão em inglês para Garota de Ipanema, o que não deixou Stan Getz muito animado, mas que fez com que o empresário visse ali uma ótima chance de promover o álbum, sendo dessa forma aprovada. Logo em seguida, Tom sugeriu que ela também cantasse a versão que seu amigo havia feito para Corcovado e assim, ambas foram gravadas.. Tempos depois, Stan Getz declararia que Tom e João não queriam que Astrud cantasse e que, se não fosse por ele, ela nunca teria sido descoberta. Ta…

Mesmo com esses estalos que o empresário tinha tido na gravação do disco, ao ser terminada a gravação, ele pagou todo mundo e simplesmente engavetou o disco, indo produzir outros discos. Os músicos “desbaratinaram” e foram tratar de outras coisas. Tom, por exemplo, passou por poucas e boas e acabou até tocando violão em algumas gravações para salvar unzinho no final do mês. João Gilberto aceitou o convite de João Donato e foram fazer uma temporada no sul da Itália, levando junto Tião Neto, Milton Banana e, é claro, Astrud Gilberto, que ainda ninguém conhecia e que viajou no papel de simples esposa de João.

O ano correu e, em julho, Tom embarcou de volta num navio para o Brasil. Na Itália o casal João e Astrud se separaram, indo literalmente um para cada lado – João para Paris e Astrud para o Rio. Em Paris, João Gilberto conheceu Miúcha e a convidou para ser sua secretária quando voltasse para Nova York. Em novembro, finalmente Getz/Gilberto saiu da gaveta. O empresário colocou pra ouvir e gostou do que ele tinha ali. Quanto mais ouvia, mais gostava. Mesmo a febre da bossa nova já tendo passado nos Estados Unidos, o empresário decidiu arriscar, afinal, o que ele tinha a perder? Ele tratou de prensar o álbum na íntegra e amputou as duas faixas com Astrud (The Girl From Ipanema e Quiet Night Of Quiet Stars) da participação de João Gilberto e ainda de quebra as deixou com um tempo mais convidativo para as rádios tocarem. Tratou de incluir o disco no suplemento “latino” da Verve e, em fevereiro de 1964, disparou a primeira cópia do single para uma pequena estação de jazz. Dias depois recebeu um telefonema do programador: os ouvintes não paravam de ligar para a estação, perguntando o que era “aquilo”.

No Brasil, em 1964, Garota de Ipanema podia ser qualquer coisa, menos uma novidade. Todo mundo já tinha gravado, e em todos os formatos possíveis e imagináveis: cantor-solo, trio de jazz, conjunto vocal, dupla de cantos, quarteto de cordas, orquestras de tamanhos variados e com arranjos sinfônicos. Enfim, de tudo quanto é jeito. Mas o mais impressionante é que, além de todos já terem gravado e todos já estarem cansados de ouvir, NINGUÉM esperava aquela versão com Stan Getz, João Gilberto, Tom Jobim, Milton Banana, Tião Neto e Astrud Gilberto. Ninguém no Rio, em Nova York, em Istambul ou em qualquer outra parte do mundo esperava por aquilo. Se o feito de Jazz Samba parecia inalcançável e a onde da bossa nova parecia ter sido apenas algo passageiro, o que dizer então de um disco que ficou em 2º lugar dentre os mais vendidos por 96 semanas? O primeiro lugar em todas as listas de 64 pertenceu a algum álbum dos Beatles, dos vários lançados naquele ano. Mas, ainda assim, Getz/Gilberto alcançou um feito que até hoje não foi atingido: é o álbum de jazz mais vendido de todos os tempos. Não só vendido como respeitado também.

Tamanho foi o barulho que esse disco causou que, em poucos meses, Stan Getz comprou uma casa de 23 quartos, João Gilberto embolsou módicos 23 mil dólares de saída. Já Astrud Gilberto ganhou o referente à tabela do Sindicato dos Músicos de Nova York: 168 dólares por dois dias de trabalho – e, ainda assim, Stan Getz achou demais.

Com The Girl From Ipanema tocando em todas as rádios, lojas de discos, máquinas automáticas, vitrolas domésticas, sistemas de som, torradeiras, carrinhos de cachorro-quente e bueiros de Nova York, seus criadores tiveram de voltar correndo para lá.

Stan Getz, mais do que depressa, mandou chamar Astrud no Rio e deu início á uma longa temporada de shows nos Estados Unidos. Não demorou muito para que Astrud se livrasse do “encosto” e desse início ás gravações de seu primeiro álbum solo (que foi sucedido por outros mais á frente), que acabou se tornando sinônimo dos anos 60 nos Estados Unidos. Tom também voltou para os Estados Unidos para participar do primeiro disco de Astrud, assim como para gravar uma série de grandes álbuns dele mesmo. A partir dali, ninguém mais segurou o fenômeno Tom Jobim. Quanto a João Gilberto, que já estava por lá, foi convidado por Stan Getz para um show que resultou num Getz/Gilberto #2 bem tímido e sem comparações com o primeiro. Á partir de 65, João Gilberto caiu na estrada acompanhado de gente grande como o pianista Bill Evans, mas já sem Stan Getz.

O empresário do famigerado Getz/Gilberto deu início a mais uma fase de discos de bossa nova, gravando os discos de Astrud, três dos que considero alguns dos melhores discos de Tom: Wave, Tide e Stone Flower, além de gente grande como Airto Moreira e Eumir Deodato, que teve até música no filme 2001: Uma Odisséia no Espaço saída de um dos álbuns dessa safra pós-Getz/Gilberto.

Por causa de Getz/Gilberto, a América adotou João Gilberto, Tom Jobim e Astrud Gilberto, absorveu-os e tratou-os como se eles fossem seus. E, por muito tempo, pareceu que eles eram mesmo. Entre Estados Unidos e México, João Gilberto ficou 20 anos fora do Brasil.Tom ia e voltava – e, numa dessas, gravou dois álbuns com Sinatra – até o fim, em 94. Já Astrud nunca mais voltou. Mais tempo se passou e, além de Tom, morreram Getz, Tiãoe Milton Banana. Garota de Ipanema, a canção propriamente dita, é que ficou imortal: tornou-se a primeira ou a segunda mais tocada no século inteiro, alternando com um Beatles, é claro. Já Getz/Gilberto, que nunca saiu de catálogo, inscreveu-se num pequeno panteão de perfeições criadas pelo homem (e, no caso, uma mulher), à margem e apesar de si mesmo. Perfeições que, um dia, esse homem terá de fazer por merecer.

Download do álbum (link do Um Que Tenha):

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Download do Álbum

One Response to “Getz/Gilberto: A Epopéia”

  1. Nay Says:

    Venho assistindo mais filmes do que dou conta, garoto! O otimismo bateu à porta também… De fato, ele não me deixa… :-) Beijos!

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