Buena Vista Social Club

8 Julho, 2008

O Buena Vista Social Club é um projeto idealizado por Ry Cooder, que reuniu os maiores nomes da velha guarda da música afro-cubana. Dentre os participantes do projeto, podemos destacar a presença do cantor Ibrahim Ferrer, do violonista e cantor Compay Segundo e do excelente pianista Rubén González. O cd teve uma receptividade muito maior do que a esperada, se tornando best-seller em pouco tempo e rendendo shows em vários países onde subitamente criou-se um interesse pela música cubana. O expoente desse movimento de valorização e reconhecimento da música afro-cubana no resto do mundo foi justamente esse álbum. Chega a soar enfadonho ressaltar sua importância e elogiá-lo.

Este disco também teve boa repercussão para todos que fizeram parte do trabalho, rendendo um álbum solo de Rubén González, outro de Compay Segundo e um terceiro, produzido por Ry Cooder, de Ibrahim Ferrer, que foi, de longe, o membro do Buena Vista Social Club que obteve maior sucesso com o público.

O disco é um misto de salsa cubana, boleros e alguns outros ritmos naturais da própria Cuba. Algumas das músicas são reedições de antigos sucessos cubanos que ganharam nova roupagem na produção de Ry Cooder. Dada essa imensa introdução, deixo vocês com Buena Vista Social Club e seu disco homônimo e os respectivos comentários sobre as músicas. Pretendo, a partir de agora, adotar um outro modo de escrita com a intenção de abreviar um pouco os textos, que têm sido realmente gigantescos e, como o disco tem 14 faixas, imaginem só o tamanho de uma resenha como as que eu vinha fazendo.

Buena Vista Social Club

Buena Vista Social Club

O disco começa com Chan Chan, um belo bolero de andamento mais lento e vozes abertas por Compay Segundo e Eliades Ochoa Bustamante. Ry Cooder dá um ar americano à música com a inserção de uma guitarra gravada com um slide, se assemelhando um pouco á guitarra havaiana. É uma daquelas músicas que, nem por mais, nem por menos, é simplesmente perfeita para uma boa dança á dois. Um grande destaque da música fica por conta do trompetista Manuel “El Guajiro” Mirabal, que faz um solo lindo próximo ao final da música. De Camino a la Vereda é a música que dá seqüência ao disco e tem a voz principal cantada por Compay Segundo. É uma bela cumbia de ritmo alegre, onde já podemos destacar um alaúde que, por enquanto, vem pela tangente, fazendo uma linha secundária e também podemos perceber que Manuel “El Guajiro” Mirabal é dotado de um excelente senso melódico, conseguindo se encaixar muito bem nesta música também.

A terceira música, El Cuarto de Tula, é uma pulsante salsa cubana que, logo nos primeiros acordes, praticamente nos impõe que levantemos e dancemos. Acho praticamente impossível destacar muito acima do que o conjunto todo conseguiu fazer nessa música, as participações individuais porém, ainda assim, mais uma vez Manuel “El Guajiro” Mirabal e Barbarito Torres, o instrumentista que toca alaúde cubano na faixa anterior e que, nessa faixa, faz um solo estarrecedor em técnica, bom gosto e virtuosidade.

Pueblo Nuevo é a quarta faixa do álbum e se junta aos boleros desse disco, com a diferença de que esta é instrumental e sendo tocada num conjunto razoavelmente pequeno, se considerarmos que esta conta com apenas piano, baixo, percussão e um breve solo de trompete. Tanto os solos como os tema que Rubén apresenta aqui são muito bons e demonstram o porque dele ser considerado um dos melhores pianistas cubanos, sendo lembrado antes de alguns nomes grandes do piano cubano e sendo considerado referência máxima quando o assunto é piano afro-cubano. Dos Gardenias, que até por Maria Rita já foi gravada, é cantada por Ibrahim Ferrer e é um clássico do bolero. Nesta faixa somos presenteados com uma interpretação sentimentalíssima de Ibrahim e mais um bom solo de Manuel “El Guajiro” Mirabal.

Em Veinte Años podemos ouvir a bela voz da também “ressuscitada” pelo projeto, Omara Portuondo. Á essa altura do disco, as boas interpretações de Barbarito Torres já não são mais um choque para o ouvinte que já se acostumou a ter boas surpresas quando se trata dele. O cantor Eliades Ochoa Bustamante é o violonista e cantor da próxima faixa, El Carretero. Mais uma vez Barbarito se faz presente através de uma linha melódica de alaúde cubano muito bem composta e executada. El Carretero é uma cumbia de ritmo lento porém de vigorosa linha melódica principal e é uma das músicas onde quase todos ou todos os integrantes do Buena Vista tocam/cantam.

Candela dá continuidade ao disco e é, junto com El Cuarto de Tula, a música mais animada do disco. Em ritmo de salsa cubana bem alegre, Ibrahim Ferrer canta a descontraída letra que tem como título e refrão a unidade de medida para a intensidade luminosa e no verso, gato dançarino e rato timbaleiro estressado dão o ar da graça. Segundo próprio Ibrahim no DVD homônimo, a música foi para o disco por “incidente”. Ele conta que entre a gravação de uma música e outra eles estavam descansando no estúdio e ele começou a cantar a velha música que veio à sua cabeça por motivo algum. Ry Cooder estava na sala de técnica e, por algum feliz acaso, os microfones da sala de gravação estavam ligados, então Ry ouviu a melodia empolgante e alegre e decidiu que eles deveriam gravar a música. “Ele estava me espionando!”, comenta Ibrahim sobre o divertido episódio. Além da ótima história, da ótima música num contexto geral, Candela ainda conta com ótimas performances individuais de Manuel “El Guajiro” Mirabal, o onipotente do trompete, e do também onipotente Barbarito Torres e seu alaúde cubano.

Depois de tudo o que já foi demonstrado pelos excelentes músicos do disco, ainda podemos ouvir Rubén González em mais uma música instrumental onde o principal enfoque é seu piano, a homônima ao disco e ao nome do projeto, Buena Vista Social Club, demonstrando mais uma vez o grande músico que foi e que a idade não atrapalhava em nada seu ótimo desempenho. A música é um bolero aparentemente calmo, e assim seria se não fosse pelo desempenho impressionante de Rubén, que cria por si só muitas atmosferas no decorrer da música, enquanto o resto dos músicos mantém basicamente uma linha.

No restante do disco se encontram boleros tristes e densos, como Murmullo e La Bayamesa, e músicas que lembram pelo menos 15 diferentes influências e tem até ar meio pop, como Orgullecida, dentre uma variedade de climas e ritmos tão grande quanto o talento dos músicos que fizeram parte do Buena Vista Social Club.

A batida do martelo:

O disco é, com extrema certeza, um dos que VALE COMPRAR, assim como vale procurar pelo DVD, onde é possível ver trechos de apresentações, depoimentos e conhecer os rostos daqueles que participaram do projeto, com certeza um ótimo documentário. Segue abaixo o comentário do Terra para o documentário:

“O documentário nasceu da amizade entre Win Wenders e o músico Ry Cooder (autor de várias trilhas sonoras do cineasta alemão). Quando os dois se encontraram para finalizar a trilha de O Fim da Violência, Ry estava entusiasmado com o encontro com velhos músicos cubanos, alguns dos quais já esquecidos. Pouco depois, o CD Buena Vista Social Club foi lançado com grande sucesso. Com uma câmera digital na mão e uma pequena equipe, Wenders acompanhou em 1998 a volta de Ry Cooder à Havana e registrou a performance dos músicos no estúdio, além de recuperar histórias de vida em Havana. A filmagem seguiu em Amsterdã e em Nova York com apresentações de sucesso do Buena Vista Social Club. Indicado ao Oscar 2000 de melhor documentário, só não levou o prêmio porque estava concorrendo com um favorito: o documentário Um Dia em Setembro de Kevin MacDonald (uma impressionante reconstituição do massacre de atletas israelenses nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972).”

Depois de tudo isso ainda tem como ficar em dúvida. O disco é uma ótima trilha para quem quer se animar e dançar uma boa salsa, para quem quer dançar coladinho á dois ou para quem quer curtir uma fossa, tem pra todo mundo!

O Buena Vista Social Club não tem site oficial, pelo menos eu não consegui achar nenhum, porém um pouco mais sobre o projeto não é coisa difícil de se achar na Internet. Abaixo seguem três links para alguns artigos sobre o projeto:

- Wikipedia

- Bonde (ótimo artigo sobre o DVD)

- Contra Campo (artigo/resenha de quem viu de perto + análise do que o movimento pregou, ainda que inconscientemente)

Download do álbum e imagem da capa por Buena Musica Social Blog

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